Na última década do século XX, o número de pobres do mundo (com excepção da China) aumentou em mais de 100 milhões. A reversão dessa tendência vai requerer uma mudança no foco das ações relacionadas à pobreza e uma maior preocupação com a qualidade e com o impacto do crescimento.
Governantes no mundo inteiro continuam a usar o ritmo do crescimento do PIB como medida de progresso, embora existam exemplos claros de vida nacional que demonstram que a qualidade do crescimento também é importante. Da mesma forma que a qualidade da dieta das pessoas, e não apenas a quantidade que comem, influi sobre a sua saúde e a expectativa de vida, a forma como o crescimento é gerado e distribuído tem profundas consequências para as pessoas e para a qualidade de sua vida. Essa qualidade deriva não somente de políticas macroeconômicas prudentes e de princípios microeconômicos orientados para o mercado, mas também do modo como toda a riqueza de um país é utilizada. E essa riqueza inclui o seu capital físico, humano, social e natural.
As experiências dos países ressaltam quatro áreas cruciais para a qualidade do crescimento: maior acesso à educação, proteção do meio ambiente, gestão dos riscos globais e melhoria da qualidade de governo. Apesar disso, verifica-se um subinvestimento sistemático em capital humano e uma exploração excessiva do capital natural, enquanto os subsídios ao capital físico parecem continuar muito grandes em escala mundial. No nível agregado, os subsídios (brutos) à agricultura, energia, transporte rodoviário e água oscilavam entre US$ 700 e US$ 900 bilhões anuais no início da década de 1990. Dois terços desses subsídios eram dados nos países industrializados (cerca de 2,5% do PIB) e um terço, nos países em desenvolvimento (cerca de 5% do PIB).
A equidade no acesso à boa educação define fundamentalmente a qualidade do crescimento. Iniqüidades nos investimentos em educação e saúde privam milhões de pessoas da oportunidade de melhorar sua vida. As diferenças de oportunidades educacionais entre os países são enormes. Os resultados de um levantamento em 85 países mostram que a Polônia, os EUA, o Canadá e a República Checa proporcionam as oportunidades mais eqüitativas na educação.
O Brasil, a França e a Alemanha encontram-se na faixa moderada de eqüidade.
Já o Afeganistão, a Índia, o Paquistão, o Mali e a Tunísia apresentam iniquidades educacionais cinco a oito vezes maiores que as dos EUA e da Polônia. Os custos sociais disso são enormes.
A concentração apenas em quantidade não assegura qualidade. Verificamos que gastos públicos em educação pouco têm que ver com os resultados reais da educação numa série de países. Na área da saúde, entre 191 economias analisadas, os EUA ficaram no primeiro lugar em gastos per capita, mas apenas em 37.º lugar em termos do desempenho do sistema. A França, que só gasta cerca de 60% do que os EUA gastam, ficou em primeiro lugar no desempenho do sistema de saúde; a Colômbia, no 22.º; o Chile, no 33.º; a Costa Rica, no 36.º; e Cuba, no 39.º lugar.
A qualidade do meio ambiente também é muito importante e tem um impacto direto sobre a vida dos pobres. A gestão dos recursos naturais contribui efetivamente para o crescimento a longo prazo e, de forma direta, para o bem-estar. Em 1997, a poupança interna bruta do mundo em desenvolvimento atingiu cerca de 25% do PIB. Mas, quando levamos em conta a depreciação do capital natural, a poupança interna real foi estimada em apenas 14% do PIB.
Isso inclui os casos da Nigéria, com poupança interna bruta de 22% e poupança real negativa de 12%; da Federação Russa, com poupança interna bruta de 25%, mas poupança real negativa de 1,6%; e do Brasil com taxas de, respectivamente, 19,3% e 12,2%.
As queimadas de florestas da Indonésia no ápice da crise da Ásia Oriental - causadas por políticas e gestão inadequadas - causaram perdas directas de US$ 4 bilhões em 1997 e outros US$ 4 bilhões em 1998, bem como imensos prejuízos para os países vizinhos. Mas esse desastre ambiental nunca recebeu a mesma atenção que a crise financeira, muito embora possa ter causado maiores perdas a longo prazo para os pobres, que dependem dos recursos naturais para o seu meio de vida. Igualmente importante para a qualidade do crescimento é a boa governança.
Falta de transparência, morosidade burocrática e falta de pesos e contrapesos prejudicam o crescimento e a vida dos pobres. Permitir que a sociedade influa nas decisões que afetam a sua própria vida é vital para aumentar a transparência, proporcionando os necessários pesos e contrapesos contra a corrupção e o abuso burocrático e compensando as iniciativas de determinadas elites para manipular as políticas do Estado em benefício próprio.
Finalmente, a qualidade do crescimento também está ligada à boa gestão dos riscos globais. Os créditos internacionais levantados por meio de títulos e empréstimos bancários de médio e longo prazos alcançaram US$ 1,2 trilhão em 1997, em comparação com US$ 0,5 trilhão em 1988. Embora tenha crescido substancialmente desde o início de 1970, o comércio mundial de bens e serviços é eclipsado pelas transações financeiras internacionais, que chegam a ser cinco vezes maiores que as do comércio. Essa globalização traz grandes benefícios, mas também criou riscos, decorrentes da integração financeira e da volatilidade dos fluxos de capital. Essa volatilidade precisa ser bem gerida para que os benefícios potenciais da globalização se transformem em realidade.
Além da gestão macroeconômica prudente e dos investimentos no povo, os governos podem aliviar os riscos se ampliarem os seus mercados financeiros nacionais, fortalecendo a regulamentação e a supervisão financeira, implantando mecanismos eficazes de governança empresarial e proporcionando redes de segurança social, a fim de manterem o apoio público aos mercados de capital livres.
Texto de Vinod Thomas, do Banco Mundial. Este artigo é baseado no livro A Qualidade do Crescimento, do qual é co-autor, tendo sido inicialmente publicado no jornal O Estado de S.Paulo.

OS FACTOS PORTADORES DE FUTURO
O homem, desde o início da sua existência, preocupa-se com o futuro, o momento seguinte, os tempos seguintes. Essa preocupação aumenta em função do grau de responsabilidade que as pessoas ocupam na sociedade visto que as consequências da tomada de decisão são muito mais sérias e impactam um maior número de pessoas.
Entretanto, muitas críticas são feitas aos estudos de futuro. Falhas ocorrem em diversas dimensões, devido a necessidade que o homem tem de tentar prever o que não pode ser previsto. O que na realidade ocorre é uma falta de entendimento de como estudar e lidar com os fatos ligados ao futuro, ou melhor como se posicionar perante o futuro que é múltiplo e incerto.
Uma das áreas que mais sofre críticas no que diz respeito a antecipação dos acontecimentos é a ligada aos fenômenos da natureza. Apesar da natureza sempre alertar e disponibilizar “factos portadores de futuro” as consequências desses factos são sempre imprevisíveis em função de sua natureza. Recebem influências de diversas variáveis e que alteram o curso dos acontecimento. Sendo assim, então para que estudá-los e tentar antever os acontecimentos, se a probabilidade de acerto e muito remota?
Acredita-se que é melhor alguma informação do que nenhuma para a tomada de decisão e além disso, os estudos acompanhados de monitoramento constante e sistemas de alertas que sejam capazes de reduzir os riscos é o que torna tais estudos eficientes. Podemos dar como exemplo o terremoto que ocorreu na Ásia em dezembro de 2004. Segundo o Centro de Pesquisa Geológica dos EUA o terremoto teve magnitude de 9 graus na escala Richter, foi o quarto maior já registrado desde 1900. O epicentro do terremoto foi localizado no mar a 40 km de profundidade, na costa oeste da ilha de Sumatra, a 1.620 km da capital da Indonésia, Jacarta. O forte tremor desatou uma sucessão de maremotos com ondas de até dez metros de altura - “tsunamis”. Em janeiro de 2005, após o maremoto, que atingiu nove países na Ásia e a Somália na África, o balanço da vítimas da catástrofe, ultrapassavam 100 mil, segundo informações veiculadas na mídia brasileira. Agências internacionais estimavam que o número poderia superar a marca de 200 mil mortos e milhares de desaparecidos.
Entretanto, essa tragédia poderia ter tido dimensões menores se tais países possuíssem um sistema de alerta contra tremores utilizando-se dos Wild Cards. Phil Cummins, sismólogo da Geoscience Austrália, organização de pesquisa financiada pelo governo, informou que a área em volta da ilha de Sumatra (próximo de onde ocorreu o tremor, na Indonésia) é conhecida por sua atividade sismológica, embora historicamente os terremotos na região tenham sido menos danosos do que aqueles no Oceano Pacífico.
Tal afirmação mostra que existiam Wild Cards ou mesmo factos portadores de futuro na região sinalizando a possibilidade de um acontecimento de grandes dimensões. Segundo informações veiculadas na mídia, “o centro de alerta para tsunamis do Pacífico, que fica nos Estados Unidos, detectou o terremoto na costa da Indonésia e tentou, sem êxito, avisar as autoridades na Ásia de que uma muralha de água estava se aproximando. Os funcionários do local disseram que não conseguiram alertar os países porque “não tinham idéia” de como poderiam contatar, já que não existe um sistema de alerta para o Oceano Índico. Sismólogos na Austrália disseram que a falta desse sistema de alerta para tsunamis (ondas gigantescas) no Índico poderia ter contribuído para a dimensão da catástrofe causada pelo maremoto na região. Pesquisadores nos Estados Unidos insistiram que muitas vidas poderiam ter sido salvas”. Segundo informações, também veiculadas na mídia, uma rede de monitoramento com base no Havaí fornece avisos antecipados em toda a área do Oceano Pacífico há meio século. O sistema internacional de alerta no Pacífico realiza monitoramentos constantes em busca de sinais da ocorrência de um tremor sob o mar. O aviso da possibilidade de inundações é passado rapidamente para áreas costeiras e ilhas de baixo relevo para que planos de emergência sejam implementados. Um sistema semelhante no Oceano Índico poderia dar um tempo valioso para que as áreas atingidas se preparassem para a catástrofe. Sistemas desse tipo são caros e exigem grande cooperação entre países vizinhos.
Este é um exemplo típico de que existem determinadas questões ligadas ao futuro que não podemos evitar que aconteçam, e que se configuram como as surpresas inevitáveis descrita por Peter Schwartz. Entretanto, isso não significa que devemos ficar parados esperando que elas aconteçam. Devemos estudá-las, elaborar nosso planos de contingência para que no momento em que elas aconteçam saibamos como agir, e principalmente, monitorarmos essas variáveis para sabermos a hora exacta de accionarmos tais planos de contingência.
In ABRAIC (Inteligência Competitiva, Brasil).